Feromônio de Sovaco

 

O mundo gira, a gente envelhece, mas muita gente nunca perde a mania de inventar teoria bonita para justificar preguiça feia. A novidade agora entre a garotada da internet tem nome gringo e pose de ciência: pheromone-maxxing. Traduzindo do jargão dos celulares para o português que a gente fala na calçada: marmanjo passando dias sem ver água e sabão, jurando de pé junto que o futum do próprio suor é "feromônio selvagem" capaz de enlouquecer as meninas.

Segundo os grandes filósofos das redes sociais, tomar banho, passar desodorante ou caprichar num perfume é uma bobagem que abafa a virilidade da criatura. Para eles, a camisa suada acumulada de três dias não é falta de asseio; é a essência do leão da savana chamando a caça.

O engraçado é ver essa turma se apoiar na palavra "feromônio" como se fosse um feitiço moderno de amor. Na natureza, o troço até funciona: formiga segue trilha química sem errar o caminho, mariposa fêmea atrai o macho a quilômetros de distância e cachorro sabe exatamente a hora de latir no portão da vizinhança. Só que bicho tem no focinho um tal de órgão vomeronasal em pleno funcionamento, feito sob encomenda para decifrar esses recados invisíveis no ar. O ser humano, coitado, perdeu o uso dessa ferramenta há milhares de anos — sobrou só um vestígio apagado dentro do nosso nariz. Para piorar a desculpa dos rapazes, o suor que sai do corpo nem cheiro tem: o que empesteia o ambiente é o banquete das bactérias da pele, que devoram a gordura acumulada e devolvem pura catinga em forma de ácido e enxofre. Humano não é inseto, e bactéria fazendo digestão no sovaco nunca foi poesia romântica.

Olho para uma coisa dessas e dou risada sozinho, lembrando do meu tempo de rapaz.

Na nossa época, o baile ou o encontro com uma garota — uma mina, como a gente costumava falar naqueles tempos —  era tratado como coisa séria. Ninguém aparecia de qualquer jeito, muito menos com cheiro de quem acabou de capinar um lote. O banho era demorado, com sabonete até atrás da orelha, cabelo assentado com brilhantina no capricho, a melhor calça bem vincada pelo ferro e a camisa passada sem um amassado. O toque final ficava por conta da água de colônia borrifada com orgulho. Fazer tudo isso não era frescura: era respeito.

A gente se arrumava e ficava cheiroso para deixar claro, sem precisar falar uma palavra, que aquela menina valia o esforço. Era a nossa maneira de dizer: "você é importante para mim, e eu não viria ao seu encontro parecendo um maltrapilho". Se algum engraçadinho da turma resolvesse aparecer no portão da mina com esse tal "aroma primitivo" de vestiário de várzea, não ganhava nem o boa-noite, quanto mais a mão dela para caminhar pela praça.

Hoje, esses coitados entram no ônibus ou na lanchonete achando que estão exalando mistério e sedução, enquanto as pessoas ao redor vão disfarçadamente dando dois passos para o lado e procurando de onde vem o cheiro de pano de chão molhado. O que eles juram ser atração química primitiva é só o instinto de sobrevivência alheio implorando por uma janela aberta.

Atração entre duas pessoas é coisa séria e tem seus mistérios, mas garanto que nenhum encanto sobrevive a quarenta e oito horas de desodorante vencido. A esses bravos guerreiros do cheiro rústico, o meu conselho de quem já viveu um bocado: larguem a internet por meia hora, entrem debaixo do chuveiro e esfreguem esse corpo. O melhor feromônio que um homem pode usar na frente de uma mulher ainda é respeito e um bom papo. E água morna com sabonete nunca matou ninguém.

 


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