O Grande Mito do "Farmar
Aura":
Quando a Internet Inventa uma Omelete
sem Ovos
Se você
apareceu nas redes sociais recentemente, deve ter topado com a nova pérola do
vocabulário digital: a missão de "farmar aura". A princípio,
parece um daqueles termos corporativos vazios ou uma gíria de videogame que se
perdeu no caminho. Mas, se a gente raspar essa casquinha de verniz moderno, o
que sobra? Absolutamente nada. Nem em inglês, nem em português, nem na física
quântica, nem na metafísica de boteco.
Vamos abrir o
capô dessa aberração linguística e rir um pouco de quem acha que está
acumulando superpoderes fazendo carinha de paisagem.
Primeiro,
vamos falar sobre a engenharia da palavra. O verbo "farmar",
como todo mundo sabe, veio do inglês to farm (cultivar, colher). Nos
jogos, faz sentido: você vai lá, mata dez javalis digitais para colher ouro.
Mas aí inventaram a colagem com aura. Em inglês, aura existe
(significa atmosfera, campo energético, aquela vibe que a pessoa emana). Só que
a combinação "farmar aura" soa para um falante nativo de
inglês tão natural quanto “to tractor a ghost” ou “to harvest a
smell”. É um monstro sintático que não significa absolutamente nada em
língua nenhuma. É o equivalente a dizer que você vai "arar a
ventania" ou "colher fumaça".
O problema é
que quem popularizou a expressão acha que "aura" é um tipo de
pontuação de videogame que você ganha por exclusividade ou por fazer pose de
marrento. Na tradição mística e espiritual de onde o conceito original foi
tirado, a aura é o campo eletromagnético sutil que circunda os seres
vivos, refletindo o estado emocional, mental e espiritual genuíno de uma
pessoa. Aura não é acessório de shopping que você veste porque comprou um
óculos escuros estiloso, e muito menos se cultiva na marra. Tentar fingir
tranquilidade contra a vontade é como passar perfume francês sem lavar a bunda
ou a xoxota: o esforço é evidente, mas o cheiro continua denunciando.
A parte mais
divertida — ou desesperadora — dessa tendência é ver os criadores de conteúdo
se submetendo a verdadeiras sessões de humilhação pública em troca de cliques.
Quando eu mesmo vi alguns desses vídeos, fiquei sinceramente sem saber se
aquilo era triste, engraçado ou profundamente ridículo. São marmanjos fazendo
caras de misteriosos, virando o pescoço em ângulos ortopédicos, cruzando os
braços com marra de vilão de anime de baixa categoria ou andando de forma
robótica em plena luz do dia, jurando que estão "farmando aura".
Se você parar
para analisar friamente, esses gestos repetitivos não geram absolutamente
nenhum efeito no mundo real. É o equivalente a jogar videogame com o controle
fora da tomada e achar que está zerando o chefão. Você está suando à toa,
gastando caloria com pose e, no fim do dia, a única coisa que está sendo
colhida é engajamento em cima de gente que confundiu rede social com hospício.
Quer ter aura boa
de verdade? Descansa esse rosto, para de tentar coletar pontos imaginários no
metaverso da internet e vai cuidar da vida real. Porque, no fim das contas,
quem gasta o dia inteiro tentando "farmar aura" na internet costuma
descobrir que a única coisa que está cultivando de verdade é uma bela plantação
de coisa alguma. A verdadeira aura — aquela que realmente ilumina o ambiente,
atrai o respeito genuíno e deixa marcas duradouras — não precisa de pose,
câmera lenta ou edição de vídeo. Ela se fortalece com as boas vibrações da
alma focada em espalhar ou disseminar o amor, a caridade, a cortesia, a paz e o
velho jargão: fazer o bem sem olhar a quem.
